segunda-feira, 13 de julho de 2015

Caso ad.01

“Só a lembrança permite ao ser humano compreender sua existência” Marcel Lêgout Quando eu tinha 13 anos estava cursando o sétimo ano e, de repente, minha escola que estudara desde o jardim de infância começou a ficar muito diferente. Na época, tinha amigos de todos os tipos. E o maior deles Pedro Hugo. E as meninas eram bem lindas, com seus cabelos fininhos e cheirosos... A escola ficava a poucas quadras da minha casa e com o tempo minha permitia que fosse à pé, completamente só. Amava andar pelas ruas da Tijuca e perceber que já era praticamente um adulto. Os mendigos e pedintes sempre me instigaram – o que fazia as pessoas se tornarem assim? Quem eram elas? Onde estariam suas famílias? Depois das férias de Julho de 2012 coisas realmente estranhas ocorreram. Foram férias chatíssimas reduzidas a ver séries, jogar meus games prediletos e aguardar filmes bons serem lançados ou rever os clássicos. É o que nos resta uma vez que um George Lucas e suas guerras fictícias são muito raros em nossa pobre sociedade mundial. Quando retornamos as aulas, no início de Agosto, meu grupo de amigos tinha sido devastado. Incrível como trinta dias que para minha vida tinham sido tão insignificantes poderiam transformar mentes e diria até, espíritos. Paola perdeu a indesejável virgindade em Cabo Frio que segundo ela não estava nada frio. Conheceu um tal de Paulo no condomínio e agora só fala nesta criatura. Marcela foi ainda mais longe, já não era virgem e nestas férias fez como dizia aquela música meio antiga...”I kissed a girl ‘n I liked”. Se todos os problemas fossem o sexo e o rock ‘n roll estaria tudo bem. Mas o que realmente interferiu de forma violenta, bizarra em nosso grupo foram as velhas e não tão conhecidas drogas. É no mínimo interessante depois de termos ouvidos nossos pais, a televisão, os professores alertando para dizermos NÃO a elas, sempre teremos quem diga “talvez” ou até mesmo um retumbante “sim”. Veja que as coisas estão muito fora de controle por aqui. Não tenho nada contra um baseado, já fumei maconha uma vez e nem gosto muito porque tenho um sono, depois fome e depois até dor de cabeça. Além disso, tenho bronquite desde pequeno e se fumar cigarros ou qualquer outra coisa corro o risco de de ter que voltar a fazer natação – que considero o esporte mais tedioso e solitário, com todo respeito aos que a praticam. Gosto de jogar basquete, mas jogo meio mal e demoro a ser escolhido pelos times e outras humilhações semelhantes. Pois é, como eu ia dizendo, as drogas começaram a aparecer com mais frequência e além de maconha e haxixe aparecia também uns mais corajosos (ou medrosos) com bala ou doce...nomes até fofinhos para extasy e ácido. Drogas que mudam as pessoas mesmo e que misturadas com vodca e redbull transforma mesmo os mais quietos. As meninas morriam. As meninas morriam de vontade de transar e terminaram fazendo com um, com dois, com as amigas, com três. O fato é que, para alguém que não está no clima fica impossível não enxergar os perigos deste tipo de caminho. Às vezes, um ou outro vomita e já vi até mais de um deles desmaiou porque esqueceu de passar o lança, seja lá o que isso significa. Sei que aquilo tudo ficou meio demais para minha cabeça meio quadrada. Acho que já nasci velho. Gosto de usar guarda-chuva na mochila mesmo quando está sol. É um segredo meu mas bem que aproveitam a carona naquelas chuvas no final de um dia calorento. Assim fomos, eu e ele, devagarzinho ficando de fora dos programas, das festas, do cinema e finalmente mal nos falávamos na escola. Os pais deles nos olhavam com um certo ar de desespero, pedindo no olhar: “Salva a Julia”. “Dá uns conselhos para Gabi” ou “O que eu faço para que o Marcelo seja como vocês?”. Sei lá. Aquilo me dava um pouco de pena. Eram pessoas que eu costumava chamar de “tios” e “tias” e que me serviam cachorro-quente, pizza e pipoca quando éramos crianças. De alguma forma tudo aquilo me dava uma espécie de peso na consciência. Como se as escolhas erradas deles fossem um pouco de culpa minha. Ou como se meu silencio e o afastamento natural que nos abateu fosse não uma consequência mas a causa daquele sofrimento todo, daquela maluquice. Minha cabeça doía. Meu estomago doía. Dizem que o coração não dói, mas o meu era uma exceção e tinha a nítida sensação que deveria voltar, sumir ou ficar doido também mas tudo que eu conseguia era tomar meu remédio de alergia, meu remédio de bronquite ou dor de cabeça e dormir, dormir. Sinto dizer isso mas acho que queria dormir para sempre