quinta-feira, 23 de julho de 2015

“A alma humana está contida nos nervos do corpo”

O melhor romance que já li sobre para paranoia foi escrito pelo mestre Freud em 1911 - quando ele escreveu e comentou o caso do Dr. Schreber inclusive a frase que dá título a este texto é deste paciente. No início do relato são prestados esclarecimentos de que o caso não tem interferências sobrenaturais. Um aspecto interessante é que o próprio paciente redigiu um vasto texto sobre sua própria enfermidade. Corajoso em se lançar em um tratamento pouco convencional no início do século passado foi ao consultório do controverso Dr. Sigmund Freud se submeter a recém inaugurada Psicanálise. (Digo polêmico porque falava de sexualidade de uma maneira pouco usual para época e parou para ouvir as queixas histéricas). O tema do divã é o sofrimento. Isso não quer dizer que o processo é sempre da ordem da dor. Às vezes, experimentamos o gozo de uma nova compreensão de nosso passado, presente ou da visão de futuro. Também não é proibido dar boas gargalhadas diante das falcatruas do inconsciente. Voltemos à paranoia. O dito Sr. Schreber sofria de um problema grave (para a época) se espantou, ou melhor, se apavorou diante de um desejo: "ser copulado como uma mulher". O prazer em imaginá-lo foi seu grande desespero. Homem correto, honesto e respeitado profissionalmente. Era verdadeiramente aterrorizado pela fuga de uma ideia com desdobramentos delirantes para justificar ou escondê-lo. Medo. Ilha do medo. A paranoia cresce quando "estamos sozinhos, ninguém nos ouve, quando chega a noite e podemos pensar"...parafraseando uma antiga música. O ciúme excessivo e doentio só pode ser compreendido pela via do desejo. Ora, se uma mulher nutre um sentimento de posse tão acirrado – acreditando que seu homem é desejado e assediado por toda mulher que dele se aproxima. Veja que ela julga suas adversárias atraentes o suficiente para despertar-lhe o desejo. A grande questão é de quem o desejo? Do objeto do ciúme ou do próprio ciumento? Muito antes de todas as passeatas e formalização dos casamentos entre pessoas do mesmo gênero, o mestre Freud observava: “Todo ser humano oscila, ao longo de sua vida, entre sentimentos heterossexuais e homossexuais, e qualquer frustração ou desapontamento numa das direções pode impulsioná-lo para a outra”. O desejo é como meio circulante de energia entre pessoas e objetos. É por natureza deslizante e muda de alvo com liberdade – o que proíbe ou libera são as convenções da cultura. A lei do incesto é, por exemplo, uma das mais antigas e fortes destas proibições. Motivo pelo qual posso amar profundamente meu irmão Samuel (leonino e meu oposto complementar) mas não poderei desposá-lo. O sim ou não, o certo e o errado, o preto ou o branco, são polarizações que fazem com que tenhamos uma cegueira inconveniente para os cinquenta tons de cinza que temos para escolher. Finalmente, a equação paranoide: Eu o amo. Eu não o amo (negação). Ele me ama (desejo). Ele me odeia (e me persegue) gera uma atitude cansativa de ataque, ou melhor dizendo de defesa para um ataque inexistente. No cerne da agressividade paranoica está o excesso de sensibilidade. Terminam a atirar pedras no telhado alheio esquecendo-se que o deles também é de vidro.