quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Amor, morte e arte

Para abordar esse binômio amor e morte, lançaremos mão de um precioso recurso: a arte. Desde os primórdios da psicanálise, Freud (1926/1976) propõe em A questão da análise leiga que aqueles que pretendem exercê-la devem ficar atentos aos estudos de diversas searas do conhecimento. As contribuições da produção literária, teatral e cinematográfica a que temos acesso se articulam aos conceitos psicanalíticos. Difícil imaginar mitos, peças e óperas sem histórias regadas a muito amor e morte. Impossível não perceber que onde chegamos com a psicanálise, a arte já lá esteve. Um exemplo dessas tramas está na obra de Nelson Rodrigues. Ele foi um proeminente jornalista, dramaturgo e escritor que tinha como marca registrada desestabilizar o status quo da família tradicional brasileira retratando paixões, traições, suicídios e homicídios. Analisemos a peça Beijo no asfalto (1960/2004). Arandir é a personagem principal e toda a trama decorre das consequências de um beijo na boca de um jovem atropelado, à beira da morte. A história se passa na Praça da Bandeira, Zona Norte do Rio de Janeiro. A imprensa sensacionalista e a polícia transformam o acontecimento em crime. A esposa, o sogro e a cunhada vão aos poucos se revelando em uma trama impecável. Em alguns momentos, o angustiante percurso de Arandir lembra O processo de Kafka (1925/2005). Ele tenta em vão conter a escalada de acusações e escárnios, se sentindo absolutamente sem saída. Destacamos as excelentes adaptações para o cinema em 1981 e 2018. A fragilidade e a súplica pelo amor na iminência da morte está presente na arte e na vida real. Por exemplo, no atentado de 11 de setembro de 2001, o envio de mensagens com declarações de amor foi unânime. Com o prédio em chamas, angustiante saber-se na iminência da morte. Morrer é uma experiência única e individual, mesmo quando em grupo. Entramos e saímos dessa existência em absoluta solidão. A segunda referência artística que trazemos é a do livro As intermitências da morte (2005), brilhante criação do escritor português contemporâneo, José Saramago. A história se passa em um país no qual, do dia para a noite, a morte para de passar. A princípio, todos pareciam satisfeitos por atingir o ideal da imortalidade. No entanto, algumas repercussões são catastróficas: a previdência e companhias de seguros entram em crise. Os moribundos e doentes graves não morrem. Os hospitais estão superlotados. E até a igreja se desestabiliza, uma vez que o argumento da vida após a morte não faz mais sentido. Ato contínuo, instala-se uma maphia (com ph para diferenciar da máfia comum) que levam as pessoas prestes a falecer para fronteira onde a morte atuava normalmente. E o livro segue essa ficção de maneira impecável e com um final surpreendente. A questão que se levanta é que, privados de nossa finitude, perderíamos todo senso de urgência e a valorização do tempo. Poderíamos adiar constantemente os encontros com nossos entes queridos, estudar agora ou daqui a dez anos. Enfim, de certa forma a morte é o que dá sentido e movimento à vida. “O que seria de nós se não fosse o amor? Ficaríamos à mercê de nossas paixões destrutivas”? A indagação é de Jorge (2010) na obra Fundamentos de Psicanálise: de Freud a Lacan. Vol 2: A clínica da fantasia. O autor serve como inspiração dos estudos deste semestre. Nesse trabalho, abordamos o segundo capítulo da parte II (Fantasia e pulsão de morte) especificamente no segundo subtítulo: amor e morte. Foi inevitável e curioso notar que, em apenas 20 páginas, Jorge cita 11 filmes, além das histórias de Romeu e Julieta, Sherazade e conclui ainda com um poema de Florbela Espanca. Isto é, claramente recorre à arte para abordar tão árido assunto, delicado e fundamental. Na teoria psicanalítica, um baluarte desse binômio é a pulsão de morte, postulada por Freud (1920/1976) no clássico Além do princípio de prazer. Nesse trabalho ele revoluciona o dualismo pulsional e abre caminho para construção de uma nova subversão freudiana. A primeira tinha sido em 1905 com os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Buscar o prazer e aliviar a dor: é essa proposição do princípio do prazer/desprazer que foi colocada em dúvida. Em seu lugar o que se apresenta é um sujeito marcado pelo paradoxo de repetir o que causa dor, esse “para além”. Freud recorre ao princípio de nirvana (conceito budista) para ilustrar que o aparelho psíquico trabalha para manter a excitação o mais próximo de zero possível. Isto é, com a face destrutiva da pulsão de morte em atividade constante. O que todo ser vivo quer é morrer, voltar a um estado anterior de coisas – diz ele. E então a ressalva de que cada sujeito quer morrer a seu próprio modo, conforme lemos em Mal-estar na civilização (1930/1976). Tanto tememos quanto desejamos a morte. Na construção de sua teoria, Freud não abandona completamente nenhuma estrutura. O ciclo do inconsciente, da fantasia e da técnica são separados apenas didaticamente. Diante das evidências clínicas, ele vai desenvolvendo sua construção teórica em uma espécie de sobreposição de conceitos. Essa força motriz deve nos inspirar como psicanalistas desse século a ter a coragem de avançar e atualizá-la de acordo com as modificações da contemporaneidade. Um exemplo desse avanço é o ensino de Lacan. Quando Lacan afirma, no Seminário 11, que a pulsão por excelência é a pulsão de morte parece que foi lido por Freud nesse trecho de O eu e o isso: Fizemos cálculos como se existisse na mente - no eu ou no isso – uma energia deslocável, a qual, neutra em si própria, pode ser adicionada a um impulso erótico ou destrutivo qualitativamente diferenciado e aumentar a sua catexia total. (Freud 1923/1976, p. 59) É esse retorno ao inanimado enquanto vetor da pulsão por excelência, que é a de morte, que instiga Lacan a forjar o conceito de fantasia. O amor é o que vem em suplência a esse gozo mortífero. É a construção de um anteparo a procurar dirimir esse abismo do real. A fantasia é o recurso para o sujeito resistir ao empuxo de descarga direta e a direciona ora para a face erótica, ora para o aspecto destrutivo. O sujeito estaria, portanto, circulando entre duas mortes durante todo o percurso da vida. Em Lacan, o termo “entre duas mortes” comparece no Seminário 7, falando de Antígona. Uma leitura possível seria que primeira morte seria simbólica e a segunda morte, o fim da vida propriamente dito, seria a morte real. No entanto, revisitando o assunto no Seminário 8, Lacan propõe uma subversão a esse entendimento. Inicialmente temos a morte real para posteriormente experimentarmos a morte simbólica e sua articulação com a fugaz eternização e o desejo de morte. Em contraposição ao esquecimento completo que estaremos todos sujeitos em cerca de três ou quatro gerações, exceção feita aos que contribuem de forma grandiosa (heroica ou negativa) para o mundo. “A primeira fronteira, quer esteja ligada a um prazo fundamental a que se chama velhice, envelhecimento, degradação, quer a um acidente que rompe o fio da vida, a primeira fronteira é aquela onde, com efeito, a vida se acaba em seu desenlace. Pois bem, é evidente, e desde sempre, que a situação do homem se inscreve no seguinte: que essa fronteira não se confunde com a da segunda morte, que se pode definir sob a fórmula mais geral, dizendo que o homem aspira a aniquilar-se para se inscrever nos termos do ser. A contradição oculta, o detalhe a se compreender é que o homem aspira a destruir-se na própria medida em que se eterniza”. (Lacan, 1960/1961 p 103) Entre o esquecimento e a imortalidade, entre a vida e a morte, entre saber-se finito e desejarmos o infinito. Assim seguem as pulsões: vívidas, misteriosas, ruidosas e ao mesmo tempo de um silêncio que assusta aos que vivem. Amalgamadas, servem para nos sentirmos vivos, divididos e em movimento em um eterno vir a ser. Não poderia deixar de finalizar este trabalho sem deixar ao leitor mais um fragmento artístico, extraído do livro de Roland Barthes. Posto que o amor é, por assim dizer, espiar de esguio uma lasca de imortalidade. “Quando me acontece de me abismar, é que não há mais lugar para mim em parte alguma, nem na morte. A imagem do outro – à qual estava colado, da qual vivia – não existe mais; ora é uma catástrofe (fútil) que parece me afastar para sempre, ora é uma felicidade excessiva que me faz recuperá-la; de qualquer modo, separado ou dissolvido, não sou recolhido em lugar nenhum; diante de mim, nem eu, nem você, nem um morto, nada mais a quem falar [...] Apaixonado pela morte? É muito para uma metade; half in love with easeful death (Keats): a morte liberada do morrer. Tenho então essa fantasia: uma hemorragia doce que não escorreria de nenhum ponto do meu corpo, uma consumpção quase imediata, calculada para que eu tenha tempo de des-sofrer antes de desaparecer. Instalo-me furtivamente num falso pensamento de morte (falso como uma chave falsificada): penso na morte ao lado: penso nela segundo uma lógica impensada, derivo fora da dupla fatal que liga vida e morte ao mesmo tempo que as opõe”. (Barthes 1981, p.10). Rio de Janeiro, 03 de junho de 2023

Leveza nas palavras

Duas coisas fazem os seres humanos inexoravelmente alheios à natureza. São eles: a sexualidade e a linguagem. No que diz respeito à primeira, somos mamíferos complexos. Quando falamos de sexualidade humana temos uma falta de objeto. Diferente dos outros animais, ela não é cíclica e é passível de todos os ajustes e configurações. Somos todas as opções e nenhuma delas. Mas esse texto não é sobre isso. Recebi o inusitado e honroso convite para produzir um texto que poderia constar nas páginas de um livro ainda desconhecido por mim. Sim. Ruth Vianna, queridíssima, me telefona um sábado à tarde e me apresenta o desafio de escrever sobre encomenda. Escrever sobre uma obra da qual não saberia nada. Apenas o título. Passaram-se coisa de três semanas até que as primeiras ideiazinhas germinassem. O tema é amplo, complexo e essencial. Leveza nas palavras. Um pedido? Uma afirmativa? Uma recomendação? Para mim, toda vez que pensava no título e no desafio sentia algo novo. Imagino o contrário: o peso das palavras. O oposto. Como algumas palavras, frases, adjetivos, conjunções adverbiais e outros bichos podem ser duras e pesadas. A mãe que chama seu filho de lento, rebelde, inteligente ou criativo, por exemplo. As palavras pesam. As palavras marcam. As palavras têm poder. Foi assim que o livro surgiu na minha imaginação. Um apelo, uma reflexão, o aviso de que seria muito bom , seria ótimo mesmo, que as pessoas pesassem suas palavras antes de falar. Refletissem acerca do impacto de suas palavras. O mundo seria muito menos barulhento, acelerado se a gente começasse a, lentamente, ponderar nossas palavras antes de colocá-las para fora. Palavras são como flechas: uma vez lançadas não retornam ao arco. Não adianta pedir perdão. “Retiro o que disse”. Não. É impossível. O que foi dito está dito. E, como estamos diante de um livro, o raciocínio é bem semelhante. O que fora escrito está publicado. A quem interessar possa. A sabedoria e sensibilidade de Ruth Vianna está em suas mãos. Leve. Releve. Eleve. Aprecie este livro como um presente de palavras que vão ressoar em seu cérebro e coração. Vamos ao livro! Com gratidão, Liliane Barreto da Cunha Psicóloga e Psicanalista Membro correspondente da AELB lilianebcunha@gmail.com Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 2025