segunda-feira, 20 de julho de 2015

Caso 39

Anunciei que falaria de "Sofrimento na Infância" mas recentemente pude reler um livro este título e me lembrei de um detalhe muito importante, ou dois. Primeiro, todo adulto foi um dia uma criança mesmo que não se lembre disso – como dizia o pequeno príncipe. A outra coisa é que não atendo ninguém com menos de 12 anos e, tecnicamente, 12 anos não é criança nem aqui nem na China. Eis o que queria dizer: vou falar dos sofrimentos da infância não na infância que eu me sinto mais firme pra falar ou escrever. Fato é que as crianças sofrem. Sofrem desde que nascem...ou pior, já nascem sofrendo. Seja normal ou cesariana o parto é, como se diz, um parto. Vejam vocês que no segundo caso elas sequer escolhem ou percebem que chegou o dia de sair. O pequeno futuro sujeito está lá nadando, dormindo ou comendo na barriga da mãe e aff...acenderam as luzes (Cruzes!) o centro cirúrgico é frio. O pulmão doi para dar as primeiras respiradas. Alguém te vira de cabeça pra baixo ou não – o que realmente não faz muita diferença quando não se sabe o que é cabeça nem o que é pra baixo. Como se não bastasse isso te futucam todo: nariz, orelha, verificam se o que viram na ultra está tudo certo mesmo. E depois de uns segundos que parecem a eternidade te colocam por alguns míseros minutinhos nos braços daquela que já conhecem a voz, o cheiro, o gosto e as batidas do coração mas que ainda não sabe que será sua mãe. Descrito assim rapidinho parece até divertido mas na vida real não é. Veja que tivemos até agora mais dor que prazer e as coisas ficam assim por um bom tempo. Não sabemos pedir o que queremos desde cedo ou quem sabe já não sabemos mesmo o que queremos. Não sou tão ruim assim em matemática. Sei que agora viria o caso ad.3 mas preferi dar uma parada e de recomendar este filme meio de terror – caso 39 – para os meus leitores. No filme ocorre algo que já aconteceu comigo, com amigos, parentes e pacientes. A criança da casa começa a dar as ordens. Vira um reizinho sem trono que chegou agora e já quer sentar na janelinha. Pega o trem da família andando e quer sentar na janela. E senta. Se a família faz o que ela quer, vive no céu. Se as pessoas a desobedecem, bem-vindo ao “hell”. Sério. Certos ditadores de menos de um metro, um metro e meio, se acham no direito de perturbar a paz de todos. Não tem essa de respeito aos mais velhos. O canal é o deles. A comida também. Os programas de final de semana e todos os detalhes das férias. Agora se resolvemos reivindicar um pouco, como pais e adultos que somos, de tempo para nós mesmos seremos fuzilados por uma culpa imensa. Devagar...devagar com o andor que o santo é de barro. Devagar com a dor porque os homens são de barro.