segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Morreu velho e farto de dias

Ter uma filha adolescente representa um privilégio incrível. Vê-la se enmulherando, arrumada, de pijama no sofá. Meus olhos surpresos por vezes olham assustados como se fosse a primeira vez que a vejo em um misto de espanto e prazer. Adoro quando ela é obrigada a ler, pelo menos, um único e escasso livro por bimestre. Em que pese que na idade dela - aos quinze anos - lia um por semana e já contava 120 títulos devorados. Ademais é algo insano cobrar de nossos filhos uma continuidade de nossos atos. Eu sentava na primeira fila, usava óculos, não tinha vontade mas nem poderia parar na sala da diretora por problemas de comportamento. Minha mãe dava aula de inglês e em nove anos de educação no Instituto Metodista Bennett não tive a concessão de uma só advertência. Nenhuma. Não esquecia livros em casa nem deixava de cumprir os prazos de deveres e trabalhos. Não me orgulho nem um tantinho disso. Só eu sei quanto me custou. Até hoje me apavoram os prazos. Voltando a Bia. Ela abriu os primeiros livros sem figuras e sozinha nas mais de 50 páginas há pouco tempo. Leu "Onze minutos" do Paulo Coelho duas vezes. Depois, veio "Comer, rezar e amar" "A menina que roubava livros" (desconfio que este ela não terminou) e "O menino do pijama listrado". Mal consegui respirar quando no ano passado ela foi escolhida entre todos os alunos do Ensino Fundamental como a "Aluna de Ouro" da escola que estuda há dois anos. Finalmente, Beatriz Duarte florescia para as letras. Faculdade cursada pelo seu pai e pela avó Hélida. Amor da vida da sua mãe. Arte, dança, música ela sempre amou. A primeira medalha de ouro foi no Clube Militar da Tijuca com 10 aninhos - Ginastica de Solo pelo Clube Monte Sinai. Mas não era nada isso que queria dizer. O assunto era meu amado Jorge. Autor do clássico "Capitães da Areia" que vibrei ao ler nos meus treze anos ou de "Gabriela Cravo e Canela" que amei aos 35. Outro dia, por motivo de teste, eu e ela tivemos uma deliciosa insônia literária. "A morte e a morte de Quincas Berro d'Água". O livro contava com interessantes gravuras em preto e branco e uma história deliciosa e de fácil leitura mas profunda absorção. Assim, Quincas me perseguiu durante semanas. No metrô, tomando banho, antes de dormir. Sinto que todo homem bem casado tem seu lado Quincas. Um vago ressentimento da imagem da perfeição que Joaquim causa sobre esposa, filhos e netos. A vida vai chegando ao fim. Ou, pelo menos, para lá do meio. Hora de dar um berro. Independência ou morte? Um grito a favor da própria individualidade. Mesmo que seja considerado moralmente morto, Quincas me parece estar mais vivo que nunca em seus últimos dias na Terra. A expressão que dá título a este post é bíblica. Sempre achei meio patético morrer velho e farto de dias. Teoricamente, uma bênção. Na prática, um estorvo. Na controversa poesia da Sociedade Alternativa temos que todo homem deve ter o direito de viver como quiser e de morrer da maneira que Ele quiser. Jorge Amado cumpre a risca este manifesto com seu simpático personagem. Nasceu Joaquim mas morreu Quincas. Que assim seja!