segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A hora de tirar a camisa

Uma das expressões mais gastas do meio corporativo é: "Você tem que vestir a camisa!". E, durante nossa carreira saímos por aí vestindo as camisas que nos convidam a vestir. Nos envolvemos com as metas da empresa. Acreditamos com fé nos números projetados pela direção e seguimos, apaixonados, o caminho das vitórias. Afinal. é vestindo a camisa da empresa que ganhamos as melhores oportunidades, promoções, exploramos nossas aptidões e deixamos nossos talentos a disposição. Confundimos de verdade os objetivos deles com os nossos. Queremos ganhar mais dinheiro. Acreditamos piamente no crachá, no contracheque, no bônus, na meritocracia. E seguimos como um Édipo cego e errante. Camisa suada. Se alguma mudança estratégica muda a cor da camisa, mais que depressa mudamos nossa cor predileta. "Quem não muda, dança". Dançamos a dança das mudanças. Por vezes, a camisa fica apertada, rasga em alguns lugares...Não acreditamos mais nos ideais da empresa. Não concordamos com os meios para atingir os objetivos. Mas as contas vencem no final do mês. a escola das crianças é cara. a viagem que parcelamos em dez vezes ainda está debitando no cartão. E continuamos firmes. Até agora nada disse que meus caros leitores não estivessem fartos de saber. Mas voltemos ao título. Amo títulos. Estamos falando aqui do libertador movimento de tirar a camisa. De acreditar que a força do seu nome não é mais belo em um cartão de visitas bilíngue e a inscrição de "diretor" ou "superintendente" abaixo dele são o sentido de sua existência. Como sabem, tenho uma estranha obsessão por futebol. É o esporte brasileiro por excelência. Mesmo quem o despreza ou odeia não pode ignorá-lo. Não há como fugir de sua onipresença. Eis o que queria dizer: pessoas brigam seriamente em bares, ônibus e redes sociais pelos seus times. seus hinos. seus escudos. Confundem a glória dos jogadores com seu próprio suce$$o. Estranho? Não para os brasileiros. Nossa pátria de chuteiras. Mas peço que se lembrem da cerimônia que ocorre ao final de cada jogo. Não importa quanto humilhante ou surpreendente seja o placar. Jogadores suados, após da longa disputa de uma hora e meia. Trocam as camisas. Misturam seus suores. Falam bobagens aos repórteres afoitos à beira do campo. Choram de alegria ou decepção. Mas, sobretudo, lembram a todos nós que saber a hora de despir a camisa é tão importante quanto a de vesti-la. Não deixe que nenhuma camisa, por mais bonita que seja roube sua essência. Seu cheiro. Não vale a pena tirar a pele para se livrar da camisa. Para tudo há um tempo certo. Se for agora seu momento de tirar a camisa. Faça-o. Coragem. Você e seu coração podem mais.