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terça-feira, 20 de outubro de 2015
Crente que faz análise
Que ironia. Minha mãe me presenteou com um "Diário da Mulher Vitoriosa". Nunca me senti menos vitoriosa. Meu marido e pai dos meus dois filhos tem uma amante. Minhas notas na faculdade estão péssimas e não há um dia sequer que eu não pense em desistir. Talvez não seja para mim. Tantas coisas que eu desejava não aconteceram. Tenho 36 anos, uma filha de 15 e um menino de 8. Pedi demissão do meu emprego. Não era o trabalho em si que me arrasava mas as duas horas e meia que ficava dentro de um ônibus. Fico pensando qual o sentido disso tudo. A vida está pesada e sem cor. Tudo é de uma repetição impressionante. Por isso não escrevi nada no meu diário. Seria uma sucessão de repetições. Acordar cedo. Colocar as crianças para escola. Fazer almoço, cuidar das roupas. Limpar a casa. Fazer o jantar. De noite, único momento em que temos toda a família reunida não poderia ficar mais só. Nem sequer conseguimos assistir televisão juntos. Meu filho joga, minha filha não saí do computador e meu marido do celular. Prefiro estar mesmo sozinha do que falsamente acompanhada. E sou invadida por uma imensa saudade. Não sou do tipo de pessoa que quer parecer ter menos idade do que tem. Da infância, lembro de algumas poucas coisas como meu lanche humilhante. ovo com beterraba. Comia escondida aquela comida rosa e nunca tinha dinheiro para entrar na fila da cantina. Sonhava entrar naquela fila e reclamar do salgado como as outras meninas. Na adolescência, pouco melhorou. Frequentava as reuniões da igreja e cantava. Lembro do meu casamento e sinto uma fisgada não sei se no peito ou na boca do estômago. Estava tudo preparado e foi cancelado. Ainda noiva fiz algumas coisas. Contei para minha prima, talvez ela tenha contado para minha mãe, chegou aos ouvidos do meu pai. Não tenho raiva dela. Ou melhor, tenho. Mas tenho mais raiva de mim. Todos estão dormindo agora. Gosto de ser a última a dormir e a primeira a acordar. Tenho a clara sensação que a casa precisa de mim para viver. Minha prima não casou e eu, já vou fazer 17 anos. Abro o diário. Em cada página um texto bíblico que me bloqueia os pensamentos. Acho que deveria me separar. Eu durmo no quarto com meu filho e ele no quarto da minha filha. Penso que já estamos separados mas vivendo na mesma casa. Só falamos um com outro o essencial. Já enfrentamos muita coisa juntos: desemprego, morte do pai dele, mudanças, decepções. Traições. Sei que também cometi meus erros. Ele não me deseja como mulher há muito tempo. Vivemos como irmãos. Penso em ter um cachorro. Talvez resolva esta solidão. Penso "solidão" e jé me sinto sufocada. Um pouco antes de sair do emprego comecei a ter isso: não aguentava ficar no ônibus. Faltava o ar. Pensava que iria morrer. Ou ficar maluca. Tomo remédios. Melhoro um tempo. Pioro de novo. Não consigo ver a saída. Estou assim há quase dois anos. Cansada. Infeliz. Preciso de uma vitória, penso olhando o diário fechado. Amanhã tudo começa cedo. A casa não respira sem mim. Me falta o ar. Tenho medo.