Espaço livre para expor opiniões e para interagir com leitores, pacientes e amigos. Tudo temperado com minhas 3 grandes paixões: Literatura, Cinema & Psicanálise. Seja bem vindo!
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Caso ad.03
De repente, estou na sala de espera de uma clínica psiquiátrica. Não é exatamente isso mas tem psiquiatras aqui. Minha mãe quer que eu converse com um deles. Isso acontecu porque travei na semana passada. Estava indo para o ponto de ônibus porque chovia muito. Quando está um dia claro, vou à pé mesmo. Mas não estou gostando muito da nova escola. Nada desesperador. Ou melhor, mesmo que não concorde com isso - o desespero veio. Tentei convencê-la que psiquiatra era coisa para gente doida, maluca mesmo e que eu não me sentia doida. Me sentia doída. Percebem a diferença que um acento faz. Às vezes, as pessoas mais velhas ou adultos em geral dizem que estou na fase mais linda da vida, que aproveite e blá, blah blah...Só pode ser brincadeira. Tenho fotos de quando eu era bebê espalhadas pela minha casa. Aquilo era ser linda. Como alguém pode achar lindo espinhas pelo rosto, um peito que não cresce de jeito nenhum, um cabelo que deveria ficar lindo com o que gasto com ele (mas não fica) e um par de pernas finas...meu deus do céu! Mas acho que compreendo um pouco o que eles dizem. Daqui pra frente vai piorar muito.Quando falo ou penso isso me sinto meio depressiva. Tenho que me lembrar de não usar este termo com o médico. Não sei quando começou. Acho que o médico deve perguntar isso. Ou vai me pedir para radiografar ou fazer uma tomografia do cérebro. Isso pode ser interessante. Penso nos filmes onde aparecem estas máquinas que parecem túneis brancos e sorrio. Minha mãe repara no meu sorriso e pergunta de novo se estou nervosa. Eu não - digo, pensando que ela deve estar mais nervosa que eu. Sei bem que a vida dela não tem sido fácil. Volta do trabalho todo dia reclamando, do transito, da chefe, de ter chegado tarde, dos outros vendedores. Mas penso que ficou pior agora. Depois que ela descobriu que tem um problema. Não sei direito qual é mas deve ser um dos grandes. Fico imaginando mil coisas. Antes ela tivesse me contado. E se ela morrer e me deixar sozinha. Me acho um monstro mas, às vezes, fico imaginando isso. Eu morreria de medo mas acho que me sairia bem. Pularia ou dois próximos anos do ensino médio. Moraria com a minha vó. Minha irmã mais nova é filha do meu padrasto. Ela ficaria com ele. E eu seria expulsa por não fazer mais parte da família. Azar o meu. Ou sorte a minha. Mordo os lábios para não rir de novo. Me dá vontade de chorar de pena de mim. Poderia morrer eu. Olho para a mão da minha mãe. Meu nome é chamado alto como para me salvar destes pensamentos. Seguro a mão gelada e entro na sala do médico. (continua...)