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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Rio, 19/10 - Nasceu alguém muito especial

O post desta semana é uma homenagem a Jami A.Jr.

Hoje passei o dia orando, pensando e desejando o melhor para esta pessoa incrível que tem vivido momentos de muita dor, aprendizado, evolução espiritual e amadurecimento.

Há aproximadamente dois anos, ele sofreu um assalto no Rio de Janeiro que tirou sua mobilidade mas não sua liberdade de pensamento, palavras e capacidade de amor e perdão.

Durante estes quase 10 anos que o conheço, sempre demonstra uma atitude cristã de amor pela família que acompanhei na despedida de sua mãezinha e na dedicação e profundo amor pelo único filho.

Serviço, eficiência, garra e estratégia foram marcas de seu perfil profissional. Um orgulho para nossa cidade a qual ele lutou para defender em uma carreira linda, limpa e honesta na área de segurança pública.

Na sequência, transcrevo parte de um texto publicado por ele na internet há algum tempo o que mostra que estamos diante de um grande escritor, além de um grande homem.

Beijos de Amor

Liliane Cunha
Rio, 19 de Outubro de 2.010


"Tente cultivar em sua mente pensamentos sábios. Tente extrair de sua boca palavras úteis. Por fim, só permita que prosperem em seu coração sentimentos justos.

Alguém me disse que ficou espantado ao ver a minha fisionomia atual e como estou abatido. E é a pura verdade.

Infelizmente, acabei sendo vítima do meu próprio idealismo. O meu grande conforto é que, mais uma vez, mesmo gravemente ferido, cumpri o juramento que fiz há muitos anos atrás e do qual jamais me afastei mesmo com todas as desilusões.

Enfim, entre tantas conquistas e derrotas, esta foi só uma batalha perdida. Tenho o resto da vida para vencer a guerra.

Só lamento não poder continuar tudo aquilo que comecei e que levei uma vida me preparando, não para ser mais um, mas para ser aquele que faz a diferença e que pode repassar algo de bom para os mais novos que, como eu, trilharam o mesmo caminho e com o mesmo ideal.

Realmente, me entristece só poder ver pela mídia e não poder mais estar lá dando o melhor de mim, mesmo que sem qualquer reconhecimento. Faria tudo de novo, pois é a minha consciência que sempre comanda as minhas ações.

Aprendi também que, ao nascermos, começamos uma extraordinária contagem regressiva em nossas vidas. A minha contagem simplesmente foi zerada e iniciei outra.

Acho que devo agradecer aos médicos que me salvaram a vida. Com esse ato tão nobre, me "condenaram à prisão perpétua". Contudo, cumpriram seus juramentos e devem estar felizes agora. A ironia do destino é que tanto eles como eu fizemos o melhor que estava ao nosso alcance.

No começo, me perguntava PORQUE algo tão terrível aconteceu justamente comigo.

Agora, percebo que a pergunta correta é PARA QUE tudo aconteceu justamente comigo, já que nada é por acaso. Espero viver o bastante para aproveitar as respostas que tenho obtido.

É lógico que tenho muitas incertezas quanto ao futuro. Não sei se vou me recuperar, nem quando isso poderá ocorrer, mas, como em tudo que faço na vida, estou me esforçando ao máximo.

Contudo, independente de qualquer resultado, tenho uma certeza na minha mente e no meu coração. Como sempre e se for preciso, morrerei tentando fazer o melhor porque entendo que "sem sacrifício, não há vitória..."

Sempre procuro passar para o meu filho a essência de alguns ensinamentos que apliquei na minha vida, pessoal e profissional, que nos diz que "Se, um dia, tivermos que optar entre dois cavalos, um veloz e outro lento, devemos escolher, em primeiro lugar, qual é o nosso objetivo e até onde queremos chegar".

Feito isso, podemos escolher qualquer cavalo. Ambos nos levarão até lá.

Aprendi também que os bravos nunca perecem e conquistam cada vitória com honra e respeito pelo adversário.

Assim, não se vanglorie de vitórias sem mérito e sacrifícios. Não há honra em derrotar aquele que não tem qualquer chance de vencê-lo.

O verdadeiro vencedor não é só aquele que sempre vence, mas também o é aquele que sabe suportar os golpes mesmo quando derrotado e, daí, abstrair alguma lição.

Ame intensamente. Contudo, jamais espere ser correspondido na mesma proporção.

Quanto ao filho, como não há a opção correta na lista, quero deixar bem registrado que, INFELIZMENTE, ele não mora comigo. Em meio a tudo que me aconteceu, sem dúvida, o distanciamento dele foi o que me abateu, em cheio, pois me atingiu na minha própria essência, no meu coração e na minha alma.

Enfim, acho que sou alguém interessante para se conhecer, pois tenho uma história para contar".

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Mariana

Extraído dos Escritos Avulsos I - Obras Completas de Machado de Assis

"Voltei de Europa depois de uma ausência de quinze anos. Era quanto bastava para vir achar muita coisa mudada. Alguns amigos tinham morrido, outros estavam casados, outros viúvos. Quatro ou cinco tinham-se feito homens públicos, e um deles acabava de ser ministro de Estado. Eu, entretanto, vinha tão moço como fora, não no rosto e nos cabelos, que começavam a enbranquecer, mas na alma e no coração que estavam em flor. Foi essa a vantagem que tirei das minhas constantes viagens. Não há decepções possíveis para um viajante, que apenas vê de passagem o lado belo da natureza humana e não ganha tempo de conhecer-lhe o lado feio. Também achei mudado nosso Rio de Janeiro...mas daí a pouco saíamos pela Rua do Ouvidor fora, examinando os pés das damas que desciam dos carros, e fazendo a esse respeito mil reflexões mais ou menos engrançadas e oportunas. Duas horas de conversa tinha-nos restituído a mocidade."

Que nos portemos todos como meros viajantes respeitosos deste delicado planeta e nesta cidade abençoada por Deus. Salve o Carnaval!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Síndrome do Logradouro

A história é a seguinte. Quando solteiras, viúvas e divorciadas, as mulheres se reúnem em pequenos grupos de 3 ou 4 e saem na noite ou na balada, como preferem os paulistas. É uma guerra. Tudo acontece muito rápido. As pessoas chegam tarde. Se arrumam para impressionar (Dress to Impress). Comem bobagens, bebem um pouco. E mentem, às vezes. Números de telefone inventados, nomes trocados. Lá meu nome é Lúcia, viúva de Nelson Rodrigues. Sem problema, ninguém lê mesmo...

Mas o mais divertido é a obsessão do carioca pelo endereço. Outro dia estava na Barra na boite 021, eu e mais duas amigas, é claro. Os rapazes se aproximam, perguntam nomes, comentam amenidades. E logo a segunda ou terceira curiosidade diz respeito ao endereço. “– Moram por aqui mesmo?”. No início falava a verdade. Depois, tive uma idéia. Dizia que morava em Belford Roxo mas estava passando o final de semana na casa de uma colega em Jacarepaguá. Para outro disse que fui nascida, criada e adoro São Gonçalo – melhor bairro do Rio de Janeiro. Assim vamos brincando com os espantos e preconceitos do carioca moderno. Nossos conterrâneos acreditam em uma espécie de horóscopo do logradouro. Tijucano tem um perfil, Zona Sul de copa é diferente de Ipanema e Leblon, Baixada um coisa, zona oeste outra...é uma santa ignorância. Tem lugares bacanas em todos os bairros. E gente interessante e gente chata. Conheci bem todo o Rio, viajei pelo Brasil por mais de 5 anos, treinando, incentivando, premiando, conversando, contratando e recolocando pessoas. A letra da música pop está certa: “There’s so many special people in the world”….

Pena que pouca gente cuida do próprio jardim...e seguem pelas baladas procurando um lugar melhor para estar. A sede de amor é grande mas todas terminam lembrando a velha imagem zen. Dois mendigos com as mãos estendidas oferecendo o que não tem e querendo achar no próximo aquilo que eles mesmos procuram. Não é a toa que o mundo jaz em depressão, com delírios de fim de mundo como nunca.

Ontem ouvi uma brincadeira legal que para cada homem e mulher da cidade tem um cidadão rato. Caçando sua comida nos lugares apropriados ou não. Não sei qual seria a solução para esta profusão de ratos. De qualquer forma, estou fazendo minha parte: adotei uma linda, minha filha lhe deu um nome, compramos casa, brinquedos, liberdade condicional (na bola) e muito amor, que isso eu tenho de sobra.

Sobre o título deste escrito, minha personal coaching sugeriu que fosse “Abalou Bangu”. Achei legal, seria uma ótima oportunidade de homenagear meu amigo Fred e seu irmão que residem nesta região tão calorosa da cidade maravilhosa...40 graus à sombra (rsrsr). Mas preferi uma chamada mais reflexiva do ponto de vista médico sintomatológico.

Como já dizia o poeta: “Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite...tudo pode mudar”. Prefiro a fila da Mega Sena. Saí mais barato e com maiores chances de mudanças de vida.

Liliane Cunha – Rio, 02 de Janeiro de 2.010