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terça-feira, 13 de dezembro de 2016
A arte do não saber
Não vou falar aqui sobre meu processo de a - docelência, isto é, da transformação metanóica de me tornar uma professora. Principalmente porque é preciso deixar claro que não pretendia me tornar tal coisa. Desde os quinze anos já me sabia psicóloga. Aos dezesseis, tive minhas dúvidas e flertei com comunicação social, jornalismo e advocacia. O vestibular, à época, exigia uma escolha. E, assim, com apenas dezessete anos, iniciei em 1992 o que seria a paixão e amor eterno de minha sede de conhecimento: o ser humano.
Não cabe aqui explicar que minha aversão a me tornar mestre passava por alguns medos fundamentais como não me tornar excessivamente acadêmica: emendando a graduação com mestrado, doutorados e virar uma teórica “PH – Deusa” sem conexão com a vida real. Achava importante saber "A vida como ela é". Tinha receio de pós-doutorados e sabe-deus-o-quê onde os monstros sagrados da academia acreditam que se encontra a chave do saber, do domínio e do poder. Além disso havia meus traumas pessoais. Como já falei antes a respeito foram marcos indeléveis e a vida escolar para mim não se parece em nada com a melancólica imagem que alguns têm da infância. As carteiras de escola sempre foram para mim um lugar de um certo desconforto. Não por tirar notas baixas ou sofrer mais do que a média com o trio de exatas – matemática, física e química. Tampouco sofri o que se chama atualmente de bullying. Estudava o suficiente para seguir passando os anos, um a um, como quem vence os obstáculos de um caminho não escolhido, mas dado como obrigatório e necessário. Os recreios, deixavam livre um tempo para ler o que queria realmente saber. Sem Google, Youtube, smartphones, internet. Seguia namorando Machado de Assis, Jorge Amado, Gabriel Garcia Maques e tantos outros. Era vista como um ser meio diferente, no entanto, conquistei a amizade de Letícia Funcia Mattar e Claudia Menezes, o que justifica qualquer defeito destes primeiros anos. Atualmente, temos pouco contato, mas sei que se tornaram jornalista e artista plástica, o que me deixa orgulhosa de tê-las conhecido. No que tange aos docentes, foram poucos professores que tocaram minha alma e não somente meus neurônios. Honrosas exceções em português, história e geografia. E a paixão pelo aprendizado de idiomas. Amo inglês: leio, estudo, atendo pacientes. Enfim, é uma língua que tenho como segundo português, há quilômetros de distância.
Mas, chegamos finalmente aos dias atuais. Começou. Adoro a liberdade. A expressão livre docente é hoje minha meta de médio prazo. Por enquanto, me estou satisfeita em ser uma docente livre - curto a gostosa ansiedade dos bons começos. Depois de um ano de licença, dedicada a esta transformação, creio estar preparada para ser chamada de “professora”. Trago para celebrar este momento um conto zen:
“Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas. Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda. O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse: "Está muito cheio. Não cabe mais chá!" "Como esta xícara," Nan-in disse, "você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?"
Um brinde aos começos, aos meios, aos fins e a arte de se saber não definitivo!