terça-feira, 8 de setembro de 2015

Caso ad.03.02

Estou de novo na sala de espera. A mesma. Passou-se quinze dias desde a última vez. É pouco tempo. Geralmente. Para mim foram duas semanas péssimas. Em 20 minutos tudo pode mudar -diz a propaganda da rádio no cinema. Acho que Band News. Vi no cinema outro dia. Nunca foi tão verdadeiro. A impressão que eu tenho é que mudo de dez em dez minutos. Sou considerada tímida, quieta. Isso para quem não me conhece. Minha mente não cala a boca. Estou sem medicação. "Ainda" - disse o médico. Ele tinha olhos claros. Adoro olhos claros, os meus são castanhos. Outro dia ouvi que Deus só dá olhos claros a quem precisa. Não concordo. Como ia pensando os remédios não aconteceram. Adorei o psiquiatra. A consulta foi rápida.Ele também não passou os exames que eu havia sonhado. Mas...me recomendou conversar com uma psicóloga. Olhei minha mãe com uma cara de "Eu não te disse?" mas depois mudei a cara rápido. Ela parece cada vez mais tensa. Credo. Quando era menor, pensei em ser psicóloga. Mas quero ganhar dinheiro. Muito dinheiro. E penso que nessa profissão deve ser um pouco difícil ou, pelo menos, demorado. Saiu uma psicóloga da outra sala mas chamou um homem aqui do meu lado. Bonita. Tomara que a minha seja simpática também. O nome dela é Liliane. Disseram que não é nova. Nem velha. E que é especialista em carreira. Olho para minha mãe com o canto do olho. Ela está no celular. Adora ver o celular. Põe a culpa no trabalho mas acho que é porque ela gosta mesmo. Penso se ela vai querer entrar comigo logo nesta primeira consulta. Tomara que não. Ela quer falar por mim como se eu tivesse seis anos. Irritante. Toda vez que vamos ao médico, ela quer dar todos as informações irrelevantes sobre mim. Conta do parto, da gravidez, da ausência do meu pai. E, eu, verde de vergonha me pergunto: "Por que um dermatologista precisa saber disso? Ele só tem que exterminar cravos e espinhas!" Liliane saiu da sala e chamou nós duas, como eu temia. Aliás, como eu suspeitava. (Continua...)