O post desta semana é uma homenagem a Iracema Simon – minha primeira professora de piano.
Como estudante de psicanálise, entendo em parte o que queremos dizer quando afirmamos que a morte não há. Pode não haver para os que vão mas para os que ficam com certeza há.
O luto, o preto, o final eminente e longinguo.
“Chegar e partir são só dois lados da mesma viagem” publiquei outro dia. O trem que chega é o mesmo trem da partida...a metáfora de Milton Nascimento foi usada por Shopenhauer e Raul e por mais outros tantos que não me lembro.
Talvez esteja na Bíblia também, deus já deve ter pensado nisso antes, afinal, como diria o sábio não há nada de novo sob o sol.
Estudei um pouquinho o assunto, achei coisas interessantes sobre a história da morte com Áries. Se quiser saber mais, pergunte ao quadrado branco.
Na idade média, a morte era mencionada, anunciada e acolhida. Túmulos nas igrejas, lugares de prestígio mais perto do altar.
Quando era criança, morei no décimo primeiro andar de um prédio lindo. No play espaçoso e antigo tinham duas opções: subir de escada ou de rampa.
Mas, as vezes, funcionava também um elevador antiqüíssimo, no final de um grande túnel de pedra mal iluminado lembrando uma gruta. Ao lado do elevador, havia dois bancos médios de madeira escura e antiga.
Naqueles bancos, estariam os corpos dos dois proprietários da casa anterior a construção do edifício. Marido e mulher na porta do elevador.
Não sei se esta história é verdade ou mentira. Não tinha Google para perguntar. E até hoje não procurei saber. Para mim, aos 10 anos, tinha a certeza fatal de que os dois estavam lá, enterradinhos nos bancos, tomando conta da casa deles.
Mas falo de morte e preciso explicar o título do post. Para quem lê francês já ficou claro. Para quem não lê também. Afinal, quem não já experimentou petit gateau de chocolate? Uma delícia de bolinho de chocolate com sorvete de creme.
Petit mort seria ao pé da letra uma pequena morte. Nelson Rodrigues dizia que qualquer asneira dita em francês, já toma imediato ares de intelectualidade. C’est vrai.
Voltamos para a pequena morte em questão: perda de uma professora linda que aos meus 7 anos pegava na minha pequena mão e ensinava que as unhas deveriam estar bem cortadas para não escorregar nas teclas e que deveria treinar as escalas intermináveis do Hanon horas a fio.
Depois disso, já voltei muitas vezes a subir as escadas do pequeno apartamento que dividia com sua irmã. E o piano onde toquei as primeiras notas musicais e aprendi a ler partituras.
Sou um fracasso ao piano. Não tenho a magia. Sou alfabetizada musicalmente – e só. Admiro e ouço enquanto escrevo músicas antigas em pianos novos. Delicioso.
De volta a França, peço desculpa aos leitores atentos por ter escrito tanto sobre um assunto que não existe.
Vamos em frente. Segundo Exupéry indo somente em frente não chegamos mesmo tão longe. O planeta as vezes é pequeno. O príncipe as vezes que ficou grande.
O fato é que o que existe mesmo no mundo por enquanto é a possibilidade de aproveitar outra pequena morte.
Orgasmo pode ser chamado assim na cultura francesa, deixando claro que pulsão de vida e morte são por assim dizer dois lados de uma mesma coisa. Tesão de ser ou de não ser – eis uma das questões.