“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.” – José Saramago, Caim, Cap 6
Terminei com pena as últimas palavras do já lançado best seller de 2.009. Impossível não remeter a leitura que fiz em 2.006 do Evangelho segundo Jesus Cristo muito melhor em todos os sentidos que este novo livro. No anterior, a história narrada nos quatro evangelhos toma contornos totalmente novos e criativos. Em Caim, Saramago narra histórias que para mim como filha de pastor, estudando a bíblia há 28 anos, dando aulas há 3, são mais que conhecidas e lidas. Adão e Eva, Caim e Abel, Abraão, Ló, Sodoma e Gomorra, Torre de Babel, Moisés, Jô e finalmente, Noé. Saboreei o passeio pelo velho testamento como que toma um bom vinho do porto. Aos poucos, com vontade de viajar em seus sabores antigos. Aproveito para publicar, como degustação uma reflexão sobre a estranha justiça divina grifado por mim:
“Como fica sobremaneira demonstrado, o senhor, além de estar dotado por natureza de uma excelente cabeça para guarda-livros e ser rapidíssimo em cálculo mental, está o que se chama rico. Ainda assombrado pela abundância em gado, escravas e ouro, fruto da batalha contra os madianitas, caim pensou, Está visto que a guerra é um negócio de primeira ordem, talvez seja mesmo o melhor de todos a julgar pela facilidade com que se adquirem do pé para a mão milhares e milhares de bois, ovelhas, burros e mulheres solteiras, a este senhor terá de chamar-se um dia deus dos exércitos, não lhe vejo outra utilidade, pensou caim, e não se enganava. É bem possível que o pacto de aliança que alguns afirmam existir entre deus e os homens não contenha mais que dois artigos, a saber, tu serves-nos a nós, vocês servem-me a mim. Do que não há dúvida é de que as coisas estão muito mudadas. Antigamente o senhor aparecia à gente em pessoa, por assim dizer em carne e osso, via-se que sentia mesmo certa satisfação em exibir-se ao mundo, que o digam adão e Eva, que da sua presença se beneficiaram, que o diga também caim, embora em má ocasião, pois as circunstâncias, referimo-nos, claro está, ao assassíneo de Abel, não eram as mais adequadas para especiais demonstrações de contentamento. Agora, o senhor esconde-se em colunas de fumo, como se não quisesse que o visse. Em nossa opinião de simples observadores dos acontecimentos andará envergonhado por algumas tristes figuras que tem feito, como foi o caso das inocentes crianças de Sodoma que o fogo divino calcinou.” – Jose Saramago, Caim, Cap 8.
O fato é que no início do livro, longe de mero observador, o autor traz duas idéias primorosas que chamaram minha atenção. A narrativa de Adão e Eva ganha novos contornos. E, com incrível criatividade de um texto de 4 ou 5 versículos nasce a história de Caim. Lilith é a principal coadjuvante, obviamente não de acordo com a narrativa bíblica. Ela é uma matriarca, dona das terras de Nod, primeiro emprego do anti-heroi. Trata-se do reconhecimento claro de que houve uma época do mundo comandada pelas mulheres da antiguidade. Elas traziam em si o dom supremo de gerar pessoas e, com o parco conhecimento do processo de reprodução humana, por vezes considerado místico ou sobrenatural.
O psicanalista e meu mestre desde os tempos de faculdade, MD Magno expôs em uma de suas inesquecíveis palestras que a humanidade e cada ser humano passa por 5 fases ou impérios: o da Mãe, o do Pai, o do Filho, o do Espírito Santo e finalmente, o do Amém. Lilith é parte do primeiro império. Os patriarcas como Abraão, Isaque e Jacó são os precursores do segundo império. Jesus Cristo comanda e funda o império do Filho que já dura mais de 2.000 anos. Agora, estamos tendo sinais aqui e acolá do Espírito Santo. Incompreendido pelo maior parte das igrejas, adorado por poucos. Acredito que ele está sempre ao nosso lado: no vento, nos pássaros e dentro de quem se sensibiliza o suficiente para escutá-lo. O império do Amém vai ser uma loucura - e de certa forma também mostra seus sinais. Quando para tudo que acontecer ou ouvirmos, falaremos amém. É a aceitação completa de que a estrutura da mente está pronta pra revirar. Nosso século está revirando os conceitos de família, igreja, trabalho, sexo...enfim, estamos próximos do amém. De uma mente sem espantos diante do humano.
Finalmente concluímos que a abordagem de saramago (com letra minúscula, representando a ira divina...rsrs) é tão judaico-cristã como no Evangelho Segundo Jesus Cristo onde ele deixa claro que a vinda de Cristo amplia a influência de Deus na terra. Acho que rabinos, padres e pastores esclarecidos não deveriam criticá-lo tão duramente mas elogiar e agradecer a divulgação de Deus e seu livro.
Apesar das críticas a seu deus com letra minúscula, acho que o nosso bem maduro colega morrerá cedo ou tarde (espero que tarde para nos presentear com mais obras-primas) com as bênçãos de Deus.
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